sábado, 16 de outubro de 2010

No limiar do século XXI: para onde caminha a humanidade?

Por Valter Machado da Fonseca
Na semana passada procurei analisar mais detidamente os noticiários dos jornais e da TV. Observei que mais de 50% das notícias veiculadas nesses órgãos da imprensa referem-se a crimes como estupros, roubos, assassinatos, corrupção, tráfico de entorpecentes, assassinatos, dentre outros. Percebi que grande parte dos delitos veiculados na grande mídia acontece sem quaisquer motivos, pelo menos aparentemente. Ceifam-se vidas de pessoas por motivos irrisórios e, até mesmo sem nenhuma causa aparente. Aí é importante indagar: para onde caminha a humanidade neste limiar de século XXI? Será que o ser humano está evoluindo ou involuindo (retrocedendo, regredindo)? O que move o ser humano a cometer tamanhas atrocidades?
Por outro lado, a tal “Globalização Econômica” vem aniquilando a cultura dos povos, eliminando as etnias e gerando um conjunto de populações amorfas, sem identidade cultual. Em nome da unidade planetária, eliminam-se as particularidades e singularidades do ser humano. Transformam-no em um objeto talhado e moldado por um instrumento qualquer. Da mesma forma assiste-se a mercantilização da natureza e seus recursos. Pregam uma sociedade acéfala, na qual o homem perde suas características singulares, particulares, como se todos fossem idênticos e produzidos em série. Tudo em nome da chamada “Sociedade Globalizada”. Em nome da tal globalização, invadem-se os dialetos, produzindo uma verdadeira americanização da língua, com seus hot dogs, Shopping Centers, Feed Backs, marketings, dentre inúmeros outros vocábulos estrangeiros que invadem nosso vocabulário cotidiano. É a banalização da língua! Mas, tudo se justifica em nome da tal globalização.
Voltando às mídias quentes, em especial a TV, você já cronometrou o tempo de propaganda que toma conta dos intervalos da programação? É um tal de compre isso! Compre aquilo! Vende-se isso! Liquidação total, etc., etc. . O resultado a gente vê nas ruas. Se observarmos com critério, veremos jovens com dois, três, quatro, ... dez aparelhos celulares. Veremos famílias com três, quatro, cinco automóveis, em pleno ápice do aquecimento global. Aí perguntamos: para que tudo isso? Verificamos que o homem já não tem nenhum projeto maior de vida, pois, o fetiche da sociedade do consumo leva o ser humano a se contentar e supervalorizar os bens materiais, aqueles mesmos que a TV manda a gente comprar. Então, o fetiche e a sedução do consumismo fazem com que esses bens matérias ocupem o centro de nossa existência, de nossa vida. Assim, somos capazes de matar nossos semelhantes pela posse desses bens supérfluos. É a banalização da vida, o início da sociedade da barbárie, que conduz o à exploração selvagem do homem pelo próprio homem.
Portanto, é com pesar que verificamos que a humanidade, em pleno limiar do século XXI, está trocando a ética, a honradez, a solidariedade. Trocam-se, os valores humanos, pelo supérfluo, pelo descartável, pelo irrisório e ilusório. Infelizmente, esta é a grande marca da “Globalização Econômica”, uma sociedade “altamente (des)envolvida”. Será mesmo desenvolvida ou estamos promovendo, em nome da modernidade, uma volta à idade das cavernas? O Brilhante Geógrafo, Prof. Milton Santos acreditava que outro mundo é possível, que é preciso lutar “Por uma outra globalização”. Diante de tudo que temos visto na grande mídia e nas próprias ruas, precisamos reconstruir nossas esperanças. Esperanças em um tempo que há de vir, onde o homem reconquiste sua dignidade, seus valores e uma razão que dê à vida um motivo real para continuidade da existência humana neste planeta. Caso contrário, deveremos nos preparar para a grande tempestade que se anuncia pelas nuvens negras que já estão à vista no horizonte da humanidade, neste limiar de século XXI.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Dia do professor: o que temos a comemorar?

Por Valter Machado da Fonseca
Neste dia 15 de outubro comemora-se o dia do professor. Mas, aqui cabe a indagação: o que comemorar? É com tristeza e decepção que refletimos sobre nossa profissão e chegamos à desoladora conclusão que não temos nenhum motivo para qualquer comemoração.
A profissão docente tem sido enxovalhada, colocada em segundo plano, enquanto a educação tem sido, sistematicamente, transformada em mera mercadoria a serviço do lucro. É notório que toda a sociedade passa, necessariamente, pela escola e, consequentemente, pelas mãos dos professores. No entanto, esta honrada profissão é humilhada, subjugada, como se fosse um mero acessório, um bem descartável a serviço da reprodução do capital. Os governos e os “especialistas” dos currículos das escolas, em todos os níveis, vêm substituindo os conteúdos necessários para a compreensão do mundo, para o enfrentamento da vida, por valores superficiais e/ou meramente técnicos. A escola tem sido transformada em mais uma ferramenta que serve apenas para capacitar para o mercado de trabalho. É a “lógica” da técnica substituindo os valores humanos. Esta é a escola do século XXI que se preocupa com a formação dos sujeitos apenas para saciar a ganancia da mais valia e não para prepará-los para enfrentar sua aventura maior: o mundo, a vida.
Por isso as disciplinas que tratam das ciências humanas, como a Filosofia, Geografia, Artes, Antropologia e a Sociologia, dentre várias outras, têm sido relegadas a segundo plano. As disciplinas que tratam dos valores humanos são perigosas para os detentores do poder político, pois elas ensinam os sujeitos a pensar e, ao capital, aos donos do poder não interessam formar sujeitos pensantes, pois estes vão questionar seu poder, sua “justiça”, seus valores hipócritas, oriundos da sociedade do consumo e do culto ao supérfluo, ao descartável. Trata-se da relação saber/poder, conforme enfatiza Michel Foucault em sua “Microfísica do Poder”.
Dentro desta lógica, a profissão docente é subjugada aos anseios dos donos do poder. A eles interessam a formação de professores que não pensam, não questionam. Interessam a eles formar professores “enlatados”, “enquadrados”, “acomodados” dentro de seus projetos de perpetuação do modelo de reprodução do capital, de manutenção do status quo da ganancia exponencial da mais valia capitalista. Seguindo esta lógica, a formação de professores para atender uma educação que, a cada dia mais, se transforma em mercadoria, também têm que se submeter aos salários aviltantes do mercado da “indústria do vestibular”, dos governos capituladores, ou dos grandes grupos inter/multi/transnacionais que tomam conta das escolas e das universidades brasileiras.
Por fim, neste dia 15 de outubro, mesmo não tendo o que comemorar, fica o convite aos colegas professores: vamos partir para uma séria reflexão sobre a nossa prática em sala de aula e nossa profissão. Faz-se urgente que ergamos a cabeça e comecemos a olhar a escola para além de seus muros, repensando seu papel social. Faz-se urgente que entendamos nosso papel enquanto sujeitos formadores de valores éticos, morais e de sujeitos que podem ser agentes, cidadãos transformadores da dura realidade socioeconômica e cultural em que vivemos. É urgente que percebamos qual é o nosso relevante papel, no interior de uma sociedade cada vez mais carcomida, deteriorada pela imoralidade em todos os níveis e que caminha, a passos largos, para a barbárie. Vamos passar a limpo nossa profissão e a escola no Brasil, visando à formação de sujeitos que sejam agentes de transformação social, ao longo de um processo histórico e cultural.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Eleições, educação e promessas eternas

Por Valter Machado da Fonseca
Aproxima-se mais um pleito eleitoral, no qual o povo brasileiro é chamado a eleger o presidente da república, governadores dos Estados, senadores e deputados (federais e estaduais). Como de costume, o processo que antecede às eleições, também denominado de propaganda eleitoral, é recheado de promessas. Assistem-se desde promessas sensatas e executáveis, até mentiras mirabolantes, totalmente fora do contexto e da realidade conjuntural de nossa população.
Como em todos os processos eleitorais brasileiros, o centro da disputa passa por um turbilhão de promessas em torno das áreas de saúde, moradia, educação, transportes, dentro de outros assuntos. É interessante verificar que nesta hora, todos os candidatos: desde os postulantes à presidência da nação, passando pelos governadores e senadores, até deputados, tornam-se verdadeiros especialistas nestes assuntos, tão importantes para o povo brasileiro. Lançam mão de diversos dados estatísticos para mostrarem seu “vasto” entendimento nessas relevantes questões. Todos têm propostas para resolverem definitivamente esses problemas. Mas, o que mais chama à atenção é que, assim que terminado o pleito, essas propostas praticamente somem, evaporam, esmaecem como fumaça no ar, para retornar após quatro anos no próximo pleito.
Quero aproveitar esse espaço para chamar à atenção para a educação brasileira. Causa-nos constrangimento falar do salário dos nossos professores, principalmente na Educação Básica. Esses educadores assumem uma responsabilidade gigantesca, pois toda a sociedade passa pela Educação Básica. No entanto, recebem salários aviltantes. Aqui não estou fazendo comparações nem falando de um município nem Estado em particular. Refiro-me ao conjunto dos municípios e Estados brasileiros.
Além dos péssimos salários, os docentes enfrentam uma série de problemas como: falta de material didático, salas de aula superlotadas, violência e ameaças dentro da escola, preconceitos e discriminações, problemas de consumo e tráfico de drogas no ambiente escolar, dentre inúmeros outros problemas. No entanto, as eleições vêm e vão e os mesmos problemas continuam. No ensino superior vemos inúmeros problemas que não estão tão distantes dos da Educação Básica.
Um dos grandes problemas que atingem frontalmente a educação superior refere-se aos concursos públicos. Neste último período em especial, inclusive em nossa cidade de Uberaba, nos deparamos com a tentativa de fraude escandalosa em concursos que visam à contratação de docentes para o magistério superior. Foi necessária a intervenção do Ministério Público Federal para frear as falcatruas. É preciso que o governo federal seja ele qual for que vier a assumir o Palácio do Planalto, tome medidas severas no sentido de moralização dos concursos públicos no Brasil. Neste sentido, temos propostas práticas de elaboração de documentos que comprovem as fraudes escandalosas nos concursos públicos que deverão ser entregues diretamente ao MEC e ao ministro da educação, exigindo providências que visem punir os responsáveis pelas fraudes nos concursos, além de garantir ética e transparência na gestão e no trato da coisa pública no Brasil.
Esperamos que este pleito eleitoral sirva, pelo menos, para dar início a um novo processo que tenha como norte a transparência e a ética na gestão dos recursos da população que são investidos na educação, visando a moralizar todo o processo que rege os concursos públicos no país. É preciso, urgentemente, passar a limpo a educação no Brasil.

sábado, 18 de setembro de 2010

MEMBRO DO NEEFICS LANÇA SEU NOVO LIVRO EM OUTUBRO


Por NEEFICS
“O SUJEITO E O OBJETO” é o título do mais recente livro de autoria do professor mestre e doutorando em Educação e docente da Universidade de Uberaba, Valter Machado da Fonseca. Esta obra, assim como a anterior, foi produzida em parceria com a Profª. Drª. Sandra Rodrigues Braga, coordenadora do COSAE/CNPq.

O livro já tem o lançamento agendado para o dia 29 de outubro de 2010, na Biblioteca Pública Municipal Bernardo Guimarães, localizada no centro de Uberaba (MG). O evento será realizado às 19 horas e contará com a presença do autor de seu prefácio, Prof. PhD. Humberto Guido do Programa de mestrado em Filosofia da UFU e de Doutorado em Educação também da UFU, além do Prof. Décio Bragança, da Uniube e autor do posfácio da obra.
O evento é uma realização conjunta da UNIUBE/Biblioteca Municipal Bernardo Guimarães, da cidade de Uberaba. Ele terá, ainda, o apoio cultural do Núcleo de Estudos em Educação, Filosofia e Ciências Sociais do Triângulo Mineiro (NEEFICS), da seção uberabense da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB/Uberaba) e do Instituto Curupira (ONG ambientalista de Uberaba).
O evento será perpassado em diversos momentos por uma bela apresentação musical, que terá como vocalista a pedagoga Sandra Helena, também aluna do curso de direito da Uniube. Ela interpretará diversos clássicos da MPB, além de canções de compositores contemporâneos. Enfim, o evento se constituirá em uma bela oportunidade de debater as grandes questões relacionadas à área da Educação, em um ambiente embalado pela magia da boa música popular brasileira.

domingo, 22 de agosto de 2010

A cultura e a contracultura

Por Valter Machado da Fonseca
Caros (as) leitores (as)!
Hoje, me dirijo a vocês para falar de uma angústia que vem crescendo, continuamente, nos tempos presentes. Gostaria de falar um pouco acerca dos meus devaneios, quase frequentes nas madrugadas frias de inverno. O assunto que ora me atormenta é o processo cultural [ou contracultural] no qual estamos submersos até o pescoço. O que é cultura, afinal? Na sociedade moderna é difícil [para não dizer impossível] respondermos a esta indagação. Observando os noticiários, a música, a dança, enfim, as diversas formas de expressões atístico-culturais, vemos uma pseudocultura construída sob o marketing da sociedade de consumo. Uma "cultura enlatada"! Acho que essa é a expressão correta.
Quando Caetano Veloso se referia ao “lixo ocidental” em suas belas canções, ele se referia ao rejeito, à sucata, aos dejetos, às sobras de uma produção cultural americanizada e europeizada, de forma forçada e, cujo destino final eram as mentes e os corações africanos e latinoamericanos. Caetano, Gil, Chico Buarque, Edu lobo, João Bosco, Belchior, dentre outros, chamavam à atenção num movimento pós Tropicália, para os perigos de nos deixarmos engolir por essa contracultura que surgiu da lama gosmenta americanizada e europeizada. Uma cultura que não servia para eles, mas que queriam empurrar para nós, assim com tentaram fazer, recentemente, com seus containers de lixo. Quero deixar claro que defendo a ideia de uma cultura universal, sem fronteiras, enfim, uma cultura para a liberdade. A arte é universal, não tem fronteiras. Porém, nunca defendi o acolhimento universal ou localizado de rejeitos da contracultura estrangeira.
Hoje, basta olhar os enlatados da TV, do rádio, das revistas e dos jornais para percebermos a invasão sistemática não da cultura originada simplesmente do “lixo ocidental”, mas advinda do “lixo”, proveniente do “lixo ocidental”, ou seja, “o lixo do lixo ocidental”. Os perigos sobre os quais nos alertavam Chico Buarque e seus amigos estão aí, invadindo, escancaradamente, nossas casas, nossos corações e nossas mentes. Na barbárie da sociedade atual, assistimos à gestação de uma sociedade acéfala e aculturada, reprodutora da contracultura, do culto ao consumismo e ao descartável. Presenciamos o nascimento de uma sociedade, na qual os valores culturais se edificam sobre a podridão de um sistema necrosado e decadente, onde o inimigo mortal do homem é o próprio homem.
Mas, será que tudo está perdido? Eu afirmo que não. No meio de toda essa contracultura gosmenta, em meio ao “lixo do lixo ocidental” podemos verificar que existem pessoas que criam a boa música, a boa literatura, a boa pintura, a boa fotografia, a boa dramaturgia. Em nossa região e, em especial em nossa cidade, temos legítimos representantes de uma cultura autêntica e que reflete os valores artístico-culturais originais de nosso povo. Mas, para isso é necessário que saibamos garimpar. Esses expoentes culturais de nossa gente estão perdidos no meio do “lixo do lixo ocidental”. É preciso que os encontremos e estendamos-lhes as mãos, antes que eles sejam tragados pelo “buraco negro”, pegajoso, obscuro, sem fim, da contracultura gosmenta americanizada e europeizada. Faz-se urgente que os salvemos do “lixo do lixo ociedental”.

sábado, 14 de agosto de 2010

A ciência e a prática da ciência nas bordas da modernidade: Prefácio livro "O SUJEITO & O OBJETO"

É também com grande orgulho e satisfação que apresentamos o posfácio do livro "O SUJEITO & O OBJETO", de autoria de Valter Machado da Fonseca e Sandra Rodrigues Braga. Este prefácio foi uma gentil contribuição do Prof. PhD. Humberto Guido, docente do Programa de Mestrado/Doutorado da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia (PPGED/FACED/UFU).

PREFÁCIO
Por Humberto Guido
O título deste livro remete ao feixe de questões que dão expressão ao modelo de ciência produzido pelos modernos, cuja obra coletiva vem sempre à mente quando se discute os impasses do tempo presente, a devastação do planeta, o envenenamento da mesa (daqueles que a tem), a concentração de riqueza e a disseminação da miséria em escalas jamais constatadas pelos estatísticos. O problema não é etimológico, como se a simples interpretação da palavra ciência pudesse descerrar o mistério do mal que avança sobre a humanidade, tornando plausível a destruição precoce do planeta e com ele todas as formas de vida.
O conteúdo dos capítulos deste livro levará o leitor a entender que a crise não é interpretativa, a pergunta elementar “o que é a ciência afinal?” abordada no primeiro artigo (O DISCURSO HEGEMÔNICO NAS ENTRELINHAS DO SABER) informa que o problema não é semântico, o que se deve discutir é a prática da ciência, uma situação que de saída sugere que o problema ainda não foi captado pelas instituições formadoras de professores: as universidades e os centros de educação superior. A prática da ciência ainda se faz desconhecida para grande parte dos profissionais da educação, seja a básica, seja a superior, e por vezes até mesmo na pós-graduação.
A percepção da realidade não muda apenas com interpretações, é preciso uma nova atitude para o enfrentamento dos velhos problemas, para isso é preciso repensar a formação dos agentes sociais, desde a criança até os professores formadores de professores, esta situação foi destaca por Marx em uma simples afirmação categórica, uma tese em pouco mais de três linhas: “A doutrina materialista sobre a mudança das contingências e da educação se esquece de que tais contingências são mudadas pelos homens e que o próprio educador deve ser educado” . É preciso, portanto, refletir sobre a prática educativa, também nas escolas, pensar sempre! Esta orientação aparece em todos os artigos do livro, com maior intensidade nestes: Degradação ambiental e exclusão social: interfaces de um problema da cidade (e da sala de aula), Globalização, crise da educação e falência da modernidade: notas para uma ação ética na escola, Uma escola para além do capital: o currículo como instrumento de controle ideológico.
Os outros artigos percorrem a mesma via que conduzirá o leitor na discussão da educação ambiental, cuja reflexão contribuirá na elucidação dos impasses epistemológicos e didáticos, que quando ignorados dão oportunidade para a reprodução o modelo pedagógico alienado e distante da prática da ciência contemporânea, o que na maioria das vezes reforça a visão ingênua da ciência como portadora da verdade definitiva para o progresso e prosperidade, de maneira que todo produto da ciência é necessariamente bom e deve ser recebido com aplauso. A educação ambiental é o grande desafio da sociedade capitalista e o seu sistema de ensino.
A leitura dos artigos é oportuna, não apenas pelo alerta dado pelos autores, mas, a contribuição significativa do conjunto de artigos aqui reunidos é a proposição da atitude crítica frente aos problemas gerados pelo modelo de desenvolvimento capitalista, que é sustentado pelo consumo em larga escala e cujo resultado ultrapassa a reprodução das forças de produção. O resultado visível do modelo é a devastação do ambiente, não somente os ecossistemas, o ambiente humano também é contaminado, sendo assim, a educação ambiental é atravessada pelas questões éticas: do indivíduo, do grupo, da sociedade.
A característica marcante dos escritos de Valter Machado da Fonseca e Sandra Rodrigues Braga é a abordagem do problema em sua complexidade, suas análises evitam o imediatismo da leitura de superfície, as ponderações e digressões analíticas escavam a realidade, para deixar visível o cerne dessas questões que se entrelaçam o que inviabiliza a conduta tipicamente positivista de responder aos desafios, porque no velho paradigma o diagnóstico quer insistir na simplicidade das situações-problema, como se a realidade estivesse destituída da multiplicidade que lhe dá forma.
É preciso uma nova atitude educativa, que demanda a mudança de paradigma no âmbito da educação, deixando para trás o ensino formal calcado nos conhecimentos inertes e incapazes de elucidar o mundo. A mudança na esfera da educação uma possibilidade de revisão da prática da ciência, porque não existe a ciência sem o cientista, logo, a ciência é uma prática social, que até o momento esteve submetida ao modelo econômico, mas que pode mudar e fazer mudar o modelo, instaurando em seu lugar uma nova mentalidade, comprometida com a conservação da natureza e igualmente engajada na preservação do humano em harmonia com todas as formas de vida.
Não é por outra razão que o livro se encerra com um ensaio sensível dedicado a Paulo Freire (Paulo Freire e a educação libertadora: Um modelo para a construção de uma nova escola), educador brasileiro cuja teoria alcançou o mundo e pode ser identificada ao lado de outras práxis empenhadas na refutação do autoritarismo científico e da alienação escolar. Com esta certeza, renovo a esperança de que o mundo ainda é viável, que a humanidade ainda pode ser educada.
Boa leitura!

Posfácio livro "O SUJEITO & O OBJETO"

É com imensa satisfação que apresentamos a todos (as) que acompanham o Blog do Núcleo de Estudos em Educação, Filosofia e Ciências Sociais do Triângulo Mineiro (NEEFICS), que apresentamos o Brilhante posfácio escrito pelo nosso querido professor Décio Bragança, docente da Universidade de Uberaba (UNIUBE).

POSFÁCIO
Por Décio Bragança
É uma honra para mim posfaciar uma obra que se propõe discutir assuntos tão importantes, como educação, modernidade, ecologia, cuidados com o planeta Terra e cuidados com os homens neste planeta. É uma honra posfaciar uma obra de tão importantes professores: Valter Machado da Fonseca e Sandra Rodrigues Braga.. foi deveras um dos grandes prazeres ler uma obra complexa, concisa, reflexiva e proativa.
Urge uma revolução nos destinos do país. A revolução a que se pretende começa nas escolas. A escola é o lugar de explosão de idéias, onde se planejam as ações transformadoras e de ruptura, onde se conjugam todas as inteligências nacionais, porque na escola está a massa humana de todos os destinos e um projeto organizado. Há de se fazerem aliados, companheiros, estradeiros, caminhantes, utópicos, idealistas, entusiásticos, inquietos, rebeldes e sonhadores. Caso contrário, a revolução não sai do papel.
É dever de todos trabalharem. O trabalho assalariado é algo muito novo e já está prestes a morrer, a acabar. Afinal, já sobreviveu por, mais ou menos, duzentos anos, no mundo. No Brasil, sobrevive, mais ou menos, há uns cem anos, século XX. Associado à idéia desse tipo de trabalho, houve a expansão desordenada de escolas, de universidades, do ensino superior no Brasil. Isso é coincidência? Claro que não! Não existe coincidência! Só isso prova que as escolas estão preparando e formando mão-de-obra barata ao mercado explorador, a serviço do capital humilhante e discriminatório.
A sociedade brasileira atual se espelha num modelo neoliberal, capitalista, legalista, punitivo, individualista, onde cada um se salva, cada um é o que é, porque assim quer. “Muita gente não melhora de vida, porque não quer, porque não trabalha” – sabemos que isso é uma das maiores mentiras, assimiladas por todos como verdade inquestionável. Ninguém quer ser mau, bandido, vagabundo, preguiçoso, lixeiro, servente, ajudante do ajudante que limpa o cocô do cavalo do bandido. Sem chances e oportunidades, sem saúde e educação, sem alimentos e satisfação das necessidades básicas, vivendo o descaso e desprezo de todos, torna-se quase impossível ainda alguém reagir na luta pelo bem, pela verdade, pela beleza!
As cadeias, penitenciárias, delegacias estão superlotadas e amontoadas de pessoas pobres, de pouca escolaridade, de pouco poder aquisitivo, com poucas chances e oportunidades, negras e mulatas... Será que pessoas ricas, de boa escolaridade, com todas as chances e oportunidades, brancas e claras... não traficam drogas, não cometem crimes, não assaltam, não estupram, não roubam, não dão grandes e pequenas golpes? Claro que sim. E por que não vão presas? Há muitas razões. Uma delas é que os primeiros vivem em morros e favelas, e porque não têm atestado, certidão de posse, de propriedade do terreno e do barraco, a área é considerada pública. Consequentemente, seus crimes acontecem, para as autoridades, em lugares públicos. É só a polícia, as forças de segurança, o exército com seus tanques chegarem e levarem as pessoas que julgam suspeitas. No outro caso, o crime é cometido em lugares privados, condomínios, apartamentos, escritórios... e a polícia, as forças de segurança, o exército com seus tanques não podem entrar sem ordem judicial. Uma ordem judicial não é assim dada de uma hora para outra, principalmente sem uma causa, sem um motivo, sem um indício ou suspeita ou prova de crime. Nas escolas e nas universidades, professores e estudantes acham tudo isso muito normal, que deve ser assim mesmo, que deve ser protegido e divinizado o direito de propriedade.
Flagrantes espetaculares vão para os meios de comunicação de massa e a massa – que não pensa, segundo alguns – acha que todo pobre, que todo desempregado, que todo negro, que todo analfabeto, que todo homossexual, que todo favelado... é criminoso. Há força de segurança, exército, polícias... invadindo os morros, mas não invadem condomínios fechados e com segurança particular. Diante de tamanha insensatez, professores, mestres, doutores, phd’s... se calam e acham que tudo isso é muito normal. Diante de tanta injustiça, nenhuma escola protesta, nenhuma universidade protesta, levanta a voz.
Não existe educação sem cumplicidade. Pode-se afirmar, sem medo de errar, que há cumplicidade de todos em todas as relações humanas e sociais. Essa cumplicidade poderá ser entendida como omissão. A título de exemplificação: se há traficante, há usuários de drogas, e vice-versa. Ambos são culpados, ou ambos são inocentes, mas as nossas leis, feitas por alguns poucos que freqüentaram escolas, em sua maioria, criam uma cara para o traficante e outra cara para os usuários, vivendo em estratos sociais bem definidos e diferentes. É um absurdo! As escolas não conseguem mudar o modo de pensar de pessoas que, proximamente, serão legisladores, juízes, promotores, procuradores... As escolas usam um discurso sem efeito – um sino que toca! O interessante é que esta mesma sociedade quer penas maiores para os traficantes e tratamento médico para os usuários, gratuitamente. Será que tanto um quanto outro não precisam de tratamento médico? Será que tanto um quanto outro não precisam de penas maiores e mais rigorosas? Infelizmente, nunca as escolas foram culpadas por essa situação! Quando as escolas e as universidades se calam, os discursos da mídia eletrônica e impressa criam as soluções de todos os problemas.
A expansão de escolas superiores foi muito maior que a oferta de empregos. A indústria, o comércio, os postos de serviços... não conseguem absolver todos os estudantes diplomados. O diploma, hoje, não garante absolutamente nada e muitos diplomados ficam sem emprego. A sociedade tem de entender que melhor do que um diploma, as pessoas têm de viver com dignidade e encanto. É triste observar a fila de desempregados com um diploma de curso superior na mão! Se o trabalho é um dever de todos, não será a escola, a universidade que vão resolver a questão de desemprego.
O desemprego, talvez, hoje, seja o nosso maior problema social. O interessante é que todos sabemos que ainda no Brasil tudo está para ser feito, para ser construído. Qualquer e todo país subdesenvolvido se oferece e oferece oportunidades maiores do que os desenvolvidos, onde quase tudo já está pronto, construído. E por que isso não acontece, aqui? Somos e fomos aculturados para ser empregados e não para ser trabalhadores! Somos e fomos aculturados para ser submissos e não decidir! Somos e fomos aculturados para ser obedientes e não empreendedores! Somos e fomos educados para obedecer, para fazer e não para pensar, para decidir!
A escola é, sim, a grande responsável pela mediocrização e alienação, pela massificação e humilhação, pela imbecilização e exploração do homem pelo homem. Uma pessoa com vinte anos de escola, de escolarização, passando por todos os níveis e graus, não pode se sentir um zero à esquerda, um nada. É uma afronta a todos os deuses e deusas de qualquer fé.
Não precisamos de heróis, nem vítimas, nem salvadores da pátria, mas precisamos, sim, de uma revolução que se faz com todos e com cada um. É preciso que todos e cada um opte pela revolução, apóie suas lutas e conquistas, participe da feitura de um novo destino.
Uma revolução é um momento mágico, porque é um mergulho na existência e nas razões da existência. O mágico, a magia faz parte da vida. De uma célula-ovo, um ser! Não há de haver maior transformação, mudança, revolução do que a própria vida! E o ciclo revolucionário da vida não tem fim, não termina.